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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Carta | Meu querido Dom Hélder Câmara

Carta | Meu querido Dom Hélder Câmara

Confira a carta aberta que o monge beneditino Marcelo Barros escreveu esta semana ao bispo católico já falecido, em 1999

Da Redação
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Dom Helder Câmara foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) / Reprodução
Recife, 29 de dezembro de 2017.
Querido Dom Helder Câmara,
Nesse Natal, a saudade bate como nunca. Dá-me uma vontade louca de conversar com você. Não tenho saudade dos anos 60, nos quais, pelas suas mãos, fui ordenado presbítero para o povo de Deus. Nem quereria voltar aos anos 70, quando tive a graça de ser seu secretário para assuntos ecumênicos. Na linha da espiritualidade de Natal, quero mesmo assumir a realidade do aqui e agora. Só tenho saudade é de ouvir sua voz e saber suas posições a respeito de algumas coisas que estão acontecendo. 
Hoje pela manhã, passando no aeroporto de São Paulo, por acaso, entro no email e leio uma mensagem do amigo Roberto Malvezzi (Gogó) contando que o governo Temer decretou que você, (acredite se quiser, você, Dom Helder Câmara, é o patrono nacional dos Direitos Humanos). Depois, João Pedro completou a informação de que se tratava de uma proposta de um deputado chamado Arnaldo Jordy, do PPS do Pará, que tramita na Câmara desde 2015 e que agora o Temer resolveu sancionar. Sem deixar claro porque fazia isso e que sentido tinha essa homenagem repentina.
Gostaria muito de que você pudesse se manifestar a respeito dessa iniciativa de um governo como esse que  o torna patrono nacional dos direitos humanos. Isso é uma honra ou é um insulto? Que direitos são esses? E de quais humanos? Os que estão no governo e dele se beneficiam? Quais direitos humanos sobraram do congelamento de gastos do governo em educação e saúde? De que direitos humanos o governo pensa que você é patrono - os que ainda podem restar depois das regras e normas baixadas para aliviar a barra dos latifundiários e donos de empresas que praticam trabalho escravo em suas propriedades? Os direitos humanos do povo que sem votar perde todos os dias direitos adquiridos a suor e sangue na Constituição de 1988? Que direitos humanos terão os cadáveres dos pobres que morrem sem poder aposentar-se por causa da reforma pensada pelo governo Temer? 
Vai ver que nesse Natal baixou o Espírito que anunciou a Maria a novidade da encarnação do Verbo e Temer pensou nos direitos humanos dos que votaram no governo Dilma e se arrependeu da traição que fez e do golpe que deu? Será que ele quer pedir ao Moro e ao Gilmar Mendes que leve em conta os direitos humanos de Lula e dos políticos do PT que eles tanto odeiam? O que será que está por trás dessa iniciativa do Temer? 
Parece que os poderes no Brasil gostam de usar o seu nome quando precisam de limpar alguma barra suja. Em 2010, o Senado Federal aprovou um aumento de 60% para os salários dos senadores. A notícia repercutiu mal no Brasil. Poucos dias depois, o Senado aprovou conceder a comenda Dom Helder Câmara para os Direitos Humanos a um bispo católico. No caso era Dom Edmilson Cruz, então bispo de Limoeiro do Norte, no Ceará. No céu, você ter sabido do que aconteceu. O bispo foi ao Senado e em discurso aberto rejeitou a comenda. Disse que seria incoerente se aceitasse aquela comenda dada pelo mesmo Congresso que legislava contra o povo e disse claro: "Quem age assim não é parlamentar. É para lamentar".  
Lutero dizia que "Deus prefere o insulto de quem é justo do que o louvor de quem pratica injustiça". Você, Dom Helder, sempre agiu assim. Como iria aceitar tal homenagem? Mas, quem pode atualmente lhe representar para dizer claramente ao governo Temer e ao povo brasileiro porque você se sentiria constrangido em aceitar tal homenagem e que só a aceitaria se o governo mudasse totalmente o seu modo de conceber o poder e a orientação que tem em sua gestão. Quem pode lhe representar? Não creio que você preferisse que fosse a CNBB ou algum bispo ou padre. Certamente pediria a quem se sente incomodado por essa homenagem que como brasileiro e cidadão diga que o governo não tem o direito de usar o nome Helder Câmara para seus propósitos maquiavélicos e deletérios. Esperemos que o Instituto Dom Helder Câmara (IDHEC) se manifeste, que a Escola de Fé e Política Dom Helder Câmara se posicione, que a Agência de Notícias Dom Helder Câmara, da CNBB, denuncie e que todos os movimentos sociais gritem contra essa medida e anulem qualquer tramoia que esse governo golpista e insensível aos pobres tenha planejado. 
No Natal, celebramos os santos inocentes, crianças que, segundo a tradição, foram mortas por Herodes. Hoje, devemos ser santos lúcidos, críticos e atentos ao que ocorre no mundo. José Saramago critica São José pelo fato de que, quando avisado em sonhos de que Herodes iria matar as crianças de Belém, fugiu sem antes ter advertido aos vizinhos e protegido as outras famílias. Apesar de saber que essa história é um midrash narrativo e não um fato real, atualmente temos de ser mais cuidadosos e não deixar primeiro que os inocentes morram para depois fazê-los santos. Dom Helder, você sempre foi e é nosso patrono dos direitos humanos, mas não os do governo Temer e sim os das organizações sociais que nesse 2018 vão refazer várias de suas campanhas e vão mudar o Brasil. Inspire-nos nesse caminho e nos abençoe. Seu irmão menor Marcelo (o monge do qual você fala que jovem lhe procurou em crise de vocação e que você aconselhou. Você fala dele em uma de suas vigílias em 1965, mas evita dizer meu nome para não me expor). Agora não há mais esse risco e podemos sim colocar o nome de todos nós na sua vigília pelo Brasil. 
Edição: Beatriz Buschel

domingo, 9 de outubro de 2016

dom Helder câmara

Dom Hélder Câmara

Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, em 1909. Ainda jovem, aos 14 anos, entrou no Seminário da Prainha de São José, em Fortaleza, para cursar filosofia e teologia.

Aos 22, em 1931, Hélder se ordena sacerdote. Na sequência, passou a exercer o cargo de diretor do Departamento de Educação do Estado do Ceará. Realizou a função por 5 anos, até ser transferido para o Rio de Janeiro.

Foi no Rio de Janeiro que desenvolveu algumas de suas principais obras sociais. Fundou a Cruzada São Sebastião, que era destinado a atender favelados, e também o Banco da Providência, que ajudava famílias pobres. Dom Hélder colaborou com revistas católicas, além de exercer funções na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e no Conselho Nacional de Educação.

Recebeu um convite para ser assessor do arcebispo do Rio de Janeiro em 1946. Foi o responsável pela fundação do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que o elegeu Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro.

Em 1964, pouco antes do golpe militar, Dom Hélder foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Após escrever um manifesto de apoio à ação católica operária em Recife, foi acusado de demagogia e comunismo, sendo proibido de se manifestar publicamente.

Ficou conhecido por ter se tornado um líder contra o autoritarismo e os abusos aos direitos humanos, frequentemente praticados pelos militares. Além disso, atuou em movimentos estudantis, operários, ligas comunitárias contra a fome e a miséria. Foi um defensor da justiça e da cidadania.

Mas a repressão estava cada vez mais dura. O assessor de Dom Hélder, o padre Antônio Henrique, foi preso, torturado e morto. Além disso, outros vinte colaboradores de sua arquidiocese são presos e torturados. Em 1970, fez um pronunciamento em Paris, denunciando a prática de tortura a presos políticos no Brasil, aproveitando-se da importância crescente que passava a ter. Dois anos depois, foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. O governo militar não perdoa: divulga um dossiê acusando, mais uma vez, Dom Hélder de ser comunista.

A partir de 1978, com uma lenta e gradual abertura política, Dom Hélder se dedica mais ainda a aplicar a sua teologia da libertação.
Aposentou-se em 1985, deixando mais de 500 comunidades eclesiais de base organizadas, com operários, trabalhadores rurais e retirantes em busca de melhores condições de trabalho e de vida.

Sempre atuante, Dom Hélder participou da campanha pelas "Diretas Já". E realizou debates e palestras de conscientização para a cidadania em todo o país. Além disso, deixou registrado o seu pensamento em diversos livros, que foram traduzidos para diferentes línguas.

Dom Hélder faleceu em 1999, vítima de uma parada cardíaca.

Dom Hélder Câmara

Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, em 1909. Ainda jovem, aos 14 anos, entrou no Seminário da Prainha de São José, em Fortaleza, para cursar filosofia e teologia.

Aos 22, em 1931, Hélder se ordena sacerdote. Na sequência, passou a exercer o cargo de diretor do Departamento de Educação do Estado do Ceará. Realizou a função por 5 anos, até ser transferido para o Rio de Janeiro.

Foi no Rio de Janeiro que desenvolveu algumas de suas principais obras sociais. Fundou a Cruzada São Sebastião, que era destinado a atender favelados, e também o Banco da Providência, que ajudava famílias pobres. Dom Hélder colaborou com revistas católicas, além de exercer funções na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e no Conselho Nacional de Educação.

Recebeu um convite para ser assessor do arcebispo do Rio de Janeiro em 1946. Foi o responsável pela fundação do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que o elegeu Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro.

Em 1964, pouco antes do golpe militar, Dom Hélder foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Após escrever um manifesto de apoio à ação católica operária em Recife, foi acusado de demagogia e comunismo, sendo proibido de se manifestar publicamente.

Ficou conhecido por ter se tornado um líder contra o autoritarismo e os abusos aos direitos humanos, frequentemente praticados pelos militares. Além disso, atuou em movimentos estudantis, operários, ligas comunitárias contra a fome e a miséria. Foi um defensor da justiça e da cidadania.

Mas a repressão estava cada vez mais dura. O assessor de Dom Hélder, o padre Antônio Henrique, foi preso, torturado e morto. Além disso, outros vinte colaboradores de sua arquidiocese são presos e torturados. Em 1970, fez um pronunciamento em Paris, denunciando a prática de tortura a presos políticos no Brasil, aproveitando-se da importância crescente que passava a ter. Dois anos depois, foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. O governo militar não perdoa: divulga um dossiê acusando, mais uma vez, Dom Hélder de ser comunista.

A partir de 1978, com uma lenta e gradual abertura política, Dom Hélder se dedica mais ainda a aplicar a sua teologia da libertação.
Aposentou-se em 1985, deixando mais de 500 comunidades eclesiais de base organizadas, com operários, trabalhadores rurais e retirantes em busca de melhores condições de trabalho e de vida.

Sempre atuante, Dom Hélder participou da campanha pelas "Diretas Já". E realizou debates e palestras de conscientização para a cidadania em todo o país. Além disso, deixou registrado o seu pensamento em diversos livros, que foram traduzidos para diferentes línguas.

Dom Hélder faleceu em 1999, vítima de uma parada cardíaca.
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